Quando se fala em melhorar o solo da horta, o gesso agrícola surge muitas vezes envolto em confusão. Há quem o utilize como se fosse cal, quem espere que resolva problemas de acidez e quem o aplique sem grande critério, apenas porque “faz bem ao solo”. A verdade é que o gesso não corrige o pH, mas pode ser uma ferramenta muito útil quando usada nas situações certas. Como acontece com quase tudo na agricultura, o segredo está em perceber como funciona, o que realmente faz no solo e quando faz sentido utilizá-lo.
Este artigo pretende esclarecer o papel do gesso agrícola no solo, explicando de forma simples, mas rigorosa, em que contextos pode trazer benefícios reais e em que situações não passa de um gasto desnecessário -ou até de um erro.
O que é o gesso agrícola e o que o distingue da cal
O gesso agrícola é, do ponto de vista químico, sulfato de cálcio. Ao contrário da cal e do calcário, não é um produto alcalino e, por isso, não altera de forma significativa o pH do solo. Esta é a primeira grande diferença e, também, a origem de muitos mal-entendidos.
Enquanto os corretivos calcários atuam neutralizando a acidez, o gesso atua sobretudo ao nível da estrutura do solo e do equilíbrio de certos iões, fornecendo cálcio e enxofre em formas facilmente disponíveis para as plantas. Estes dois elementos desempenham papéis importantes, mas muito diferentes daqueles associados à correção do pH.
Perceber esta distinção é fundamental. O gesso não substitui a cal, nem a cal substitui o gesso. São ferramentas diferentes, para problemas diferentes.

Gesso agrícola, solos pedregosos. Fonte da imagem: Freepik
O papel do cálcio do gesso no solo
Embora tanto o calcário como o gesso forneçam cálcio, a forma como esse cálcio se comporta no solo não é a mesma. O cálcio do gesso é mais solúvel, o que significa que se movimenta com maior facilidade no perfil do solo, especialmente em solos argilosos ou compactados.
Esta característica torna o gesso particularmente interessante em situações onde há problemas de estrutura, como solos muito fechados, duros ou com dificuldade de drenagem. O cálcio ajuda a melhorar a agregação das partículas do solo, favorecendo a formação de poros e facilitando a circulação da água e do ar. Com o tempo, isso traduz-se em raízes que exploram melhor o solo e em plantas mais resilientes.
Ao contrário do calcário, este efeito não está ligado à alteração do pH, mas sim à reorganização física e química do solo.

Efeito do gesso agrícola no solo e plantas. Autor: malshkoff | Crédito: Shutterstock
Enxofre: um nutriente muitas vezes esquecido
Outro aspeto importante do gesso agrícola é o fornecimento de enxofre, um nutriente essencial que, apesar de menos falado, tem um papel relevante no metabolismo das plantas. O enxofre está envolvido na formação de proteínas, enzimas e compostos aromáticos, sendo particularmente importante em culturas hortícolas.
Em solos pobres em matéria orgânica ou muito sujeitos à lixiviação, as carências de enxofre podem surgir de forma silenciosa, manifestando-se através de crescimento lento e folhas mais claras. O gesso fornece enxofre numa forma facilmente absorvível, contribuindo para corrigir este tipo de carência sem interferir com o pH do solo.
Este é um dos motivos pelos quais o gesso pode ser útil mesmo em solos que já têm um pH adequado.

Fonte da imagem: Freepik
Quando é que o gesso faz realmente sentido no solo
O gesso agrícola não é um produto de aplicação universal, mas pode ser muito útil em contextos específicos. Um dos casos mais claros é em solos argilosos e compactados, onde a infiltração da água é lenta e as raízes têm dificuldade em aprofundar. Nestes solos, o gesso pode ajudar a melhorar a estrutura ao longo do tempo, tornando o ambiente mais favorável ao desenvolvimento radicular.
Outro contexto onde o gesso é usado é em solos com excesso de sódio, situação mais comum em agricultura profissional, mas que pode ocorrer pontualmente em hortas regadas com água de fraca qualidade. O cálcio do gesso ajuda a deslocar o sódio das partículas do solo, facilitando a sua lavagem para camadas mais profundas. Embora este não seja um problema frequente na horta doméstica, é importante compreender que esta é uma das funções clássicas do gesso.
Por fim, o gesso pode ser útil quando se pretende fornecer cálcio e enxofre sem alterar o pH, algo impossível de fazer com corretivos calcários. Em solos já bem equilibrados do ponto de vista do pH, mas com carências específicas, esta pode ser uma solução interessante.

Fonte da imagem: Shutterstock
O que o gesso não faz: expectativas erradas a evitar
Um dos erros mais comuns é usar gesso para tentar corrigir solos ácidos. Como já vimos, o gesso não neutraliza a acidez, pelo que aplicar gesso num solo ácido esperando uma subida do pH é um erro frequente e frustrante. Nesses casos, o problema mantém-se e o investimento não traz os resultados esperados.
Outro equívoco comum é acreditar que o gesso melhora qualquer solo, em qualquer situação. Em solos bem estruturados, com boa matéria orgânica e sem carências de cálcio ou enxofre, o gesso pouco ou nada acrescenta. A aplicação indiscriminada pode mesmo levar a desequilíbrios, sobretudo se for feita repetidamente sem necessidade.
Na horta doméstica, menos é muitas vezes mais. Cada produto deve ser usado com um objetivo claro, não como uma solução genérica.
Como e quando aplicar gesso agrícola
Quando faz sentido usar gesso, a forma de aplicação é relativamente simples, mas deve ser feita com critério. O gesso pode ser espalhado à superfície do solo e incorporado ligeiramente, ou deixado à superfície para ser progressivamente integrado pela água da chuva ou da rega. A sua maior solubilidade facilita este processo.
As melhores alturas para aplicar gesso são, tal como acontece com outros melhoradores do solo, o outono e o inverno, quando o solo está menos ocupado e há tempo para os efeitos se manifestarem antes da época de maior exigência das culturas. Em canteiros já instalados, pode ser aplicado entre ciclos de cultivo.
As quantidades dependem muito do tipo de solo e do objetivo da aplicação. Mais uma vez, uma análise de solo é a melhor forma de perceber se há realmente necessidade e em que dose.
Gesso, cal e matéria orgânica: aliados, não concorrentes
É importante perceber que o gesso não substitui nem a cal nem a matéria orgânica. Cada um atua em níveis diferentes. A cal corrige o pH, o gesso atua na estrutura e no equilíbrio de iões, e a matéria orgânica alimenta a vida do solo e melhora globalmente o sistema.
Em muitos casos, os melhores resultados surgem quando estas ferramentas são usadas de forma complementar e consciente. Um solo corrigido do ponto de vista do pH, bem estruturado e rico em matéria orgânica é um solo resiliente, produtivo e mais fácil de gerir ao longo do tempo.

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Em suma: usar gesso com conhecimento, não por hábito
O gesso agrícola pode ser um excelente aliado na horta, mas apenas quando usado pelas razões certas. Não é um produto milagroso, nem uma solução universal para solos problemáticos. É uma ferramenta específica, com funções bem definidas, que deve ser integrada numa estratégia mais ampla de cuidado do solo.
Antes de aplicar gesso, vale sempre a pena perguntar: o meu solo precisa mesmo disto? Que problema estou a tentar resolver? Tenho informação suficiente para justificar esta aplicação? Quando estas perguntas são feitas com honestidade, as decisões tornam-se mais simples e os resultados mais consistentes.
Cuidar do solo é um processo contínuo, feito de pequenas escolhas informadas. É aí que a ciência encontra a prática e onde a horta começa, verdadeiramente, a prosperar.
💬 E tu?
Já usaste gesso agrícola na tua horta? Em que contexto e com que resultados? Partilha a tua experiência nos comentários.
Artigo patrocinado pela Biocal*



