Autora do artigo: Mafalda Reis Pereira, Engenheira Agrónoma
Em que consiste a horticultura?
O conceito de horticultura em sentido lato (e na visão dos Países Anglo-saxónicos), como é utilizado pela Associação Portuguesa de Horticultura, em consonância com a sua utilização nos círculos técnico-científicos internacionais, engloba a horticultura alimentar – Olericultura (hortaliças/horticultura herbácea comestível), plantas aromáticas e medicinais, fruticultura e viticultura – e a horticultura ornamental – plantas envasadas, floricultura, horticultura paisagista.
Esta fitotecnia caracteriza-se pela intensidade do uso dos fatores de produção, pela elevada rendabilidade dos seus produtos e/ou benefícios diretos ou indiretos relacionados com recreio, lazer ou terapia.
Fonte da imagem: Gestão no Agronegócio | Blog da Perfarm
O conceito de horticultura terapêutica tem sido mais comumente utilizado atualmente (com especial incidência no Reino Unido, na Europa, e nos Estados Unidos da América), o que se deve em grande parte ao aumento da importância da componente social nas atividades e nos processos dos projetos de horticultura terapêutica.
Esta temática pode ser englobada no conceito de agricultura social, pela realização de atividades em explorações agrícolas no âmbito do green care (isto é, utilização da natureza para produzir saúde, benefícios sociais ou educacionais) e nos diversos cenários da agricultura urbana.
Fonte da imagem: Frutas, Legumes e Flores
A exposição a espécies vegetais, a prática de atividades ligadas à jardinagem e à horticultura que visem o cuidar de plantas permitem incutir em pessoas de todas as idades, origens e capacidades os benefícios terapêuticos da prática.
A utilização de plantas por profissionais treinados, como um meio de atingir determinados objetivos definidos clinicamente, designa-se de terapia hortícola e baseia-se no modelo de terapia ocupacional.
De facto, a horticultura terapêutica permite ao cliente ser produtivo num ambiente em que não é pressionado e permite-lhe ainda desenvolver um sentido de identidade e de competência, no sentido em que não se revê como paciente mas sim como um trabalhador ou como um jardineiro/agricultor. Isto permite-lhe interagir socialmente, desenvolver uma rotina diária, participar no desenvolvimento de projetos (que podem ou não ser remunerados em função do trabalho e contribuir, deste modo, para a integração social no mercado de trabalho).
Fonte da imagem: Huerto Terapéutico Ateneu Castelló DCA
Este conceito baseia-se na noção de que o contacto com a natureza é bom para a saúde das pessoas, de facto, Wilson (1984, citado por Sempik et al. 2010) elaborou o conceito de biofilia, isto é, a filiação emocional inata dos seres humanos aos organismos vivos, tendo em conta a evolução do ser humano em ambiente natural. São também mencionadas relações com os rios e riachos, as ondas do mar e o vento.
Acrescenta-se a tudo isto a dependência do ser humano à natureza como meio de obter alimento através das espécies vegetais e o facto de investigações demonstrarem que existe ainda uma dependência psicológica, emocional e espiritual ligada à natureza que é difícil de satisfazer por outros meios . Conclui-se assim, que o ambiente natural é tido como um ambiente restaurador.
A eficácia da horticultura terapêutica baseia-se no facto das plantas e dos seres humanos partilharem o ritmo da vida, isto é, ambas evoluem e se modificam, respondem aos alimento e ao clima, vivem e morrem e porque existe uma interdependia entre as plantas cultivadas e as pessoas .
Fonte da imagem:Proyecto Zorba
Programas de horticultura social e terapêutica
Os programas de horticultura terapêutica incluem propagação e o cultivo de diversas plantas, em diferentes situações de ar livre ou de interior; no solo, em canteiros ou em vasos; com plantas ornamentais, culturas hortícolas, plantas aromáticas e medicinais, pequenos frutos, podendo ainda incluir árvores e arbustos ornamentais ou de fruto.
Os programas incluem ainda atividades como o semear, plantar, sachar, conduzir, regar e colher um jardim ou horta-jardim e visitas a espaços verdes e paisagens naturais.
Segundo Diehl (2007) e Thrive (2009) existem quatro tipos de programas, sendo que neste artigo se destaca a Horticultura terapêutica/ocupacional, cujo conceito se baseia na participação ativa ou passiva, em atividades/experiências com plantas, com práticas hortícolas e de jardinagem (de interior e de exterior) e ainda com paisagens naturais, com o objetivo de contribuir para o bem-estar e melhoria da saúde dos seus participantes.
A integração da horticultura terapêutica na sociedade
A horticultura social e terapêutica pode ser implementada nas mais diversas atividades que vão desde instituições de saúde e reabilitação, de serviço social, de gerontologia, e em situações de formação profissional, educação ambiental, valorização pessoal, ocupação útil do tempo e lazer.
O seu principal objetivo é fomentar o bem-estar e a melhor qualidade de vida das pessoas, com especial destaque para a saúde física e psicológica (mental e emocional).
Esta prática é retratada já na Idade Média onde muitos hospitais e mosteiros incluíam pátios com arcadas para abrigar os doentes no exterior e jardins nas proximidades . Por volta de 1600, em Inglaterra, as pessoas mais pobres trabalhavam nos jardins com o objetivo de pagar a sua hospitalização, e os médicos que acompanhavam estes doentes verificaram que estes apresentavam melhorias mais rápidas que os restantes.
Fonte da imagem:residenciapalaciodelecenes.com
Já no ano de 1798, o médico Benjamin Rush (um dos assinantes da Declaração da Independência e considerado como o pai da psiquiatria americana) fez menção à melhoria das condições de pacientes com doenças mentais associados à prática de jardinagem (Sydney Park Brown, 2011).
Em 1806, hospitais espanhóis implementaram atividades ligadas à horticultura em pacientes com deficiência mental. Mais recentemente são muitos os exemplos em que a horticultura tem sido utilizada como terapia dos quais se destacam: a prática de jardinagem na reabilitação física e emocional nos hospitais para veteranos de guerra, após a Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos da América (Brown et al, 2011).
No Reino Unido, práticas de jardinagem e horticultura foram utilizadas em instituições como o Thrive, fundado em 1978, para melhorar a qualidade de vida de pessoas com deficiência (Thrive, 2009).
Fonte da imagem:Les Vetes
Dois anos mais tarde, em 1980, no Japão, a horticultura terapêutica foi desenvolvida devido à crescente população idosa e a um sistema insuficiente de tratamento para pacientes com demência (Yasukawa, 2009).
Ulrich (1984) demonstrou que o poder na natureza na promoção da saúde é passível de ser estudado e quantificado e referiu que a visualização de árvores a partir da cama de hospital por pacientes anteriormente submetidos a uma cirurgia da vesícula biliar permitia uma melhoria mais acentuada do que a dos pacientes que visualizavam uma parede de tijolos.
E você? Já experimentou este tipo de horticultura?