Uma semente húmida apodrece no frasco. Setembro oferece os últimos dias fiáveis de baixa humidade relativa antes das primeiras depressões atlânticas, e é nessa janela que se decide a colheita do próximo ano.

Guardar sementes parece a coisa mais simples do mundo e é onde quase toda a gente falha. Não por falta de jeito, mas porque se ignora um facto elementar: uma semente está viva. Respira, consome reservas e envelhece. Tudo o que fizer a partir do momento em que a colhe ou acelera ou trava esse envelhecimento.

Feito bem, um lote guardado em casa dura três, quatro ou cinco anos, consoante a espécie. Feito mal, não chega à primavera. E o mais frustrante é que a diferença entre as duas situações não está no esforço, está em dois ou três pormenores que quase ninguém conta.

Este artigo é o passo a passo, do que escolher até ao frasco fechado na prateleira.

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O que precisa de saber antes de começar

A primeira coisa a decidir não é como guardar, é o quê. Há culturas em que guardar semente resulta quase sempre e outras em que é perda de tempo.

As espécies autógamas, aquelas que se fecundam a si próprias, mantêm as características de um ano para o outro. É o caso do tomate, do feijão, da ervilha, da alface e, na maior parte dos casos, do pimento. São o sítio por onde começar.

As alógamas cruzam-se com facilidade com outras variedades próximas, por ação do vento ou dos insetos. Abóboras, curgetes, pepinos, melões, couves, cenouras, cebolas e beterrabas entram neste grupo. Guardar semente delas é possível, mas exige isolamento entre variedades, e sem esse cuidado obtém-se no ano seguinte uma planta que não se parece com nenhuma das duas.

E depois há as híbridas. Se o pacote dizia F1, as sementes recolhidas não vão repetir a planta que a encantou. A diferença entre híbridas e variedades reproduzíveis está explicada com detalhe no artigo sobre como escolher as sementes para o seu quintal, e vale a pena confirmar antes de perder uma tarde.

O passo a passo

Escolha as plantas, não os frutos. Marque com uma fita, no início do ciclo, as plantas mais vigorosas, mais produtivas e sem sinais de doença. Marcar no fim é tarde, porque nessa altura já não se lembra de qual foi a que produziu primeiro.

Deixe amadurecer para lá do ponto de consumo. Uma ervilha de mesa é colhida verde, mas a semente só está formada quando a vagem seca e estala. Um pepino de semente fica amarelo e mole na planta. Uma alface tem de espigar, florir e formar os tufos brancos. É contra-intuitivo e é essencial.

Separe por via seca ou por via húmida. As sementes que vêm dentro de vagens ou cápsulas secas, como feijão, ervilha, alface, coentros e couves, extraem-se esfregando e depois soprando suavemente para levar as cascas. As que vêm dentro de polpa húmida, como tomate, pepino, melão e abóbora, precisam de fermentação.

Fermente as de polpa. Retire as sementes com a geleia que as envolve, coloque num frasco com um pouco de água e deixe dois a quatro dias à temperatura ambiente, mexendo uma vez por dia. Essa geleia contém inibidores que impedem a germinação dentro do fruto, e a fermentação desfá-los. Quando aparecer uma película à superfície, lave em água corrente numa peneira. As boas vão ao fundo.

Seque devagar e à sombra. Espalhe numa camada fina sobre um prato ou uma rede, num sítio ventilado, entre os 20 e os 25 graus. Nunca ao sol direto, nunca no forno e nunca sobre papel absorvente, porque as sementes pequenas colam e partem-se ao descolar.

Limpe antes de guardar. Restos de polpa, pedaços de vagem e sementes ocas atraem insetos e retêm humidade. Uma peneira de malha larga separa o que é grande, e soprar sobre um tabuleiro leva o que é leve. As sementes cheias ficam sempre para trás, porque são as mais pesadas.

Guarde só quando estiver mesmo seca. Uma semente de feijão bem seca estilhaça ao ser batida com um martelo, não amassa. Uma semente de tomate parte ao ser dobrada, não verga. Estes dois testes valem mais do que qualquer contagem de dias, porque o tempo de secagem depende da humidade do ar e essa muda de semana para semana.

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Quando e em que condições fazer

E aqui entra a meteorologia, que nesta operação manda mais do que o calendário.

Colha sempre em dias secos e ao fim da manhã, depois de o orvalho evaporar e antes do calor da tarde. Sementes colhidas com humidade demoram mais a secar e é durante essa demora que surgem os bolores.

Setembro é a janela ideal precisamente porque reúne duas coisas que não voltam a coincidir: as plantas terminaram o ciclo e a humidade relativa ainda é baixa. A partir do momento em que as primeiras depressões atlânticas se instalam, o ar do litoral chega facilmente aos oitenta ou noventa por cento de humidade relativa, e nessas condições uma semente exposta ao ar reabsorve água em vez de a perder.

Se uma chuvada apanhar as vagens ainda na planta, não espere que sequem sozinhas. Arranque a planta inteira e pendure-a de cabeça para baixo, dentro de um saco de papel, num alpendre ventilado. O saco apara o que cair e o papel deixa passar o vapor, coisa que um saco de plástico não faz.

A partir das primeiras depressões, o ar do litoral chega aos noventa por cento de humidade, e a semente exposta passa a absorver água em vez de a perder.

Os erros que estragam um lote

Secar ao sol ou com calor. Acima dos trinta e cinco graus começam a desnaturar-se proteínas e o embrião perde viabilidade. O lote parece perfeito e não germina nada.

Guardar húmida. É o erro mais comum e o mais fatal. Basta um por cento de humidade a mais para o frasco criar bolor em poucas semanas.

Guardar de plantas doentes. Várias doenças transmitem-se pela semente. Uma planta com sintomas nunca entra no lote, por mais bonito que seja o fruto.

Não etiquetar. Ao fim de três meses, todas as sementes pequenas e castanhas são iguais. Escreva a espécie, a variedade e o ano, sempre. Nunca misture anos diferentes no mesmo frasco.

Recolher de uma só planta. Nas alógamas, isso é o caminho direto para a perda de vigor, porque estas espécies estão adaptadas a cruzar-se e não a reproduzir-se sozinhas. Recolha de cinco a dez plantas diferentes.

Assumir que tudo se guarda por semente. Há culturas que se multiplicam por outra via. O alho, por exemplo, propaga-se por dentes e não por semente, e tem regras próprias de plantação que nada têm a ver com isto.

Guardar tudo o que se apanha. Uma horta caseira precisa de uma fração das sementes que produz. Vinte sementes de tomate chegam para dois anos de canteiro. Guardar centenas significa ocupar espaço, complicar a etiquetagem e, sobretudo, ficar com lotes velhos que nunca se chegam a usar.

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A regra que decide quantos anos duram

Fica para o fim o dado que mais muda resultados e que quase nunca aparece nos artigos sobre este tema.

A longevidade de uma semente depende de duas variáveis e de mais nenhuma: o teor de humidade e a temperatura de armazenamento. A fisiologia de sementes formulou isto em duas regras práticas que vale a pena decorar. Por cada ponto percentual que se reduz na humidade da semente, a longevidade aproximadamente duplica. E por cada cinco graus que se reduz na temperatura de armazenamento, acontece o mesmo.

Daí a regra prática que os bancos de sementes usam, formulada em graus Fahrenheit: a soma da temperatura com a humidade relativa deve ficar abaixo de cem. Traduzindo para valores que lhe são úteis, se guardar a dez graus, que correspondem a cinquenta Fahrenheit, precisa de humidade relativa abaixo dos cinquenta por cento.

Na prática, isso significa frasco de vidro hermético, com um saquinho de sílica ou de arroz cru lá dentro, guardado no frigorífico e não na garagem. E significa também que o lote só entra no frigorífico depois de bem seco, porque frio com humidade é pior do que temperatura ambiente com secura.

Cultura

Anos de viabilidade

Cebola, alho-francês, pastinaca

1 a 2

Cenoura, salsa, espinafre

2 a 3

Alface, feijão, ervilha, pimento

3 a 4

Couves, rabanete, nabo, beterraba

4 a 5

Tomate, pepino, abóbora, melão

5 a 6 ou mais

Valores de referência da literatura hortícola, em condições corretas de secagem e armazenamento.

Antes de semear qualquer lote com mais de dois anos, faça o teste das dez sementes entre papel húmido. Em dez dias sabe a taxa de germinação real e evita semear um canteiro inteiro para nada. E quando chegar novembro, as tarefas da horta nessa altura já incluem o planeamento do que vai semear com essas sementes.