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Saiba tudo sobre o tema das consociações de culturas para a sua horta

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Autora do artigo: Rosa Moreira, promotora do site “A Cientista Agrícola”

Consociação de culturas na horta

Como surgiu esta prática cultural?

Durante muito tempo, os agricultores que faziam do trabalho do campo o seu ganha-pão foram aprendendo pela observação e pela experiência adquirida ao longo da profissão que determinadas plantas  da sua horta apresentavam maior produtividade se estivessem posicionadas perto de outras plantas específicas, de forma a obterem benefício mútuo. Contrariamente, verificaram pela prática agrícola adquirida nas suas várias experiências agrícolas que se certas plantas eram antagónicas, pelo que se estivessem próximas tal acontecimento não acarretaria benefício agronómico.
Hoje em dia, com o avanço científico e aquisição de conhecimento constante sabe-se explicar porque tal acontece, tendo a ciência dado o nome de consociação à afinidade de certas plantas em detrimento de outras.

consociação de culturas horta

Fonte da imagem: Revista Jardins

Em que consiste a consociação de culturas? Porque deve ser feita na sua horta?

A consociação de culturas principalmente em ambiente de horta  é a prática cultural que consiste no cultivo de duas ou mais culturas próximas umas das outras de forma a obter benefício entre elas. Esta prática cultural revela-se  cada vez mais popular entre as práticas  adotadas pelos agricultores. A consociação de culturas além de favorecer a conservação das características do solo permite um maior aproveitamento dos nutrientes deste ao longo do tempo, beneficiando todas as plantas inseridas nesta técnica agrícola.  Tal facto acontece porque as culturas/plantas escolhidas fornecem entre si vantagens simultâneas quando o seu crescimento e desenvolvimento se verifica na mesma área agrícola. É importante salientar que as culturas que estão em consociação não necessitam de serem semeadas  ou plantadas ao mesmo tempo na sua horta, mas é necessário garantir que durante grande parte da duração dos seus períodos vegetativos  ocorra em simultâneo estimulando dessa forma uma interação entre elas.

consociação de culturas horta

Fonte da imagem:Hortas Biológicas

A agricultura biológica permite utilizar da melhor maneira a capacidade produtiva dos solos agrícolas, assegurando e mantendo as suas propriedades físicas, quimícas e biológicas. Dessa forma, contribui para a diminuição do aparecimento de pragas, doenças e plantas infestantes que estão intimamente ligadas ao sucesso da colheita e consequentemente ao rendimento final obtido. Para além das vantagens óbvias anteriormente referidas, a consociação de culturas permite reduzir as perdas do solo por erosão (protege o solo e as plantas da ação do vento, sol e água em excesso)  e exploração de sinergias diferentes contribuindo para o enriquecimento do solo em termos de nutrientes.

Para que esta prática cultural seja proveitosa e dela se obtenha o sucesso que qualquer agricultor ambiciona, é imprescindível que  tal como qualquer actividade agrícola seja bem planeada (o planeamento  de qualquer actividade agrícola nomeadamente as práticas culturais nela inseridas deve ser das primeiras coisas a serem feitas). Para tal é fundamental que se tenha em conta factores bióticos e abióticos tais como: solo, clima, culturas, variedades escolhidas entre outros factores que possam interferir no sucesso da consociação.  É fundamental garantir que as plantas que estão a ser consociadas não entrem em competição umas com as outras pelo espaço físico, nutrientes, água ou luminosidade.

Exemplo de estratégias a adotar nas consociações

  1. Sistemas radiculares diferentes 

Uma estratégia muito interessante que DEVE ser adotada é plantar uma cultura caracterizada por ter raízes profundas perto de uma outra com um sistema radicular menos evidente, ou seja com raízes mais superficiais de forma que a competição de nutrientes entre ambas não seja muito pronunciado.

     2. Crescimentos em altura distintos

Outra estratégia interessante é colocar próximas umas das outras, culturas caracterizadas por crescerem significativamente em altura com outras mais “rasteiras” que beneficiem parcialmente de sombra.

    3. Duração do ciclo cultural distinta

É bastante benéfico conjugar também culturas com durações do ciclo cultural diferentes como por exemplo culturas de crescimento lento com culturas de crescimento mais acentuado. Dessa forma iremos garantir que  a colheita desta última seja feita antes da cultura com crescimento mais lento estar pronta para colheita.

   4. Escolha estratégica de plantas

Quando as culturas são cuidadosamente selecionadas, isso potencia uma série de benefícios. Certas plantas são escolhidas para diminuir ou suprimir o aparecimento de plantas infestantes ou para fornecer nutrientes essenciais ao desenvolvimento de certas culturas. Ou seja, uma planta é beneficiada por outra, seja por ajudar a repelir pragas ou a atrair insetos auxiliares benéficos para as culturas;

  5. Incentivo à biodiversidade
Outro benefício da consociação de culturas  é o incentivo à biodiversidade, estabelecendo um habitat para uma variedade de insetos e organismos no solo que não estão presentes numa sistema de monocultura e que são fundamentais para o equilíbrio do ecossistema agrícola.

consociação de culturas horta

Fonte da imagem: Hortasbiopedagogicas – Webnode

Quais os principais objectivos da consociação de culturas?

Um dos principais objectivos da consociação de culturas é a obtenção de um maior rendimento final numa determinada área agrícola utilizada para o fim de produção agrícola. Esta prática cultural que abordo neste artigo utiliza recursos que de outra forma não seriam utilizados em monocultura.  É necessário planear tendo em conta o solo, o clima, as culturas e as variedades. É particularmente importante não ter culturas que competem umas com outras por espaço físico, nutrientes, água ou luz solar. Um exemplo de estratégia de consórcio é plantar uma cultura de raízes profundas com uma cultura de raízes rasas, ou plantar uma cultura de altura com uma menor cultura que requer sombra parcial.

Diferentes arranjos de espaço das consociações

  • Mista

As culturas utilizadas estão dispersas aleatoriamente pelo terreno agrícola sem qualquer arranjo  previamente definido.

  • Em linha

As culturas a consociar estão dispostas em linha, na proporção 1:1.

  • Fronteira

As culturas escolhidas para consociação  estão dispostas de forma distinta. Um das culturas é utilizada para bordadura, e a(s) restante(s) localizam-se no interior das mesmas.

  • Dupla Fronteira

As culturas escolhidas para consociação estão também dispostas de forma distinta, mas, contrariamente ao caso anterior a cultura escolhida para fazer fronteira/bordadura está presente de forma mais significativa com duas linhas de plantação de cada lado da fronteira.

 

tipos de consociação de culturas horta

Fonte da imagem:Horta Biológica

 

Na segunda parte deste artigo disponível amanhã falarei das consociações de culturas mais benéficas. Até amanhã!

 

5 Comments

  1. Fui professor durante trinta e poucos anos. Leccionei biologia, ecologia, economia agricola e todas as restante áreas do ensino agrícola, desde horticultura, fruticultura, agrologia, climatologia etc. Para além disso, fiz um conjunto de formações europeias noutros países relativos ás práticas de agricultura sustentável, desenvolvimento rural, empresariado e marketing. Pessoalmente interessei-me por todas as formas alternativas de agricultura biológica, desde a biodinamica, á permacultura. Desafortunadamente, a maioria dos exemplos que me é dado observar por individuos ou grupos “alternativos” revelam produções miseráveis e plantas geralmente raquíticas, solos inadequados e métodos imbuidos de filosofias que sendo bem intencionadas, provocam resultados e produções incapazes de suprir as necessidades básicas dos seus praticantes, condenando-os á importação de recursos financeiros e outros. Hoje sou defensor da Agricultura Biointensiva. Estou a tentar desenvolver um projecto de formação técnica adequada a cada “filosofia” de produção. Os exemplos que apresenta relativos á consociação de culturas, são perfeitamente adequados aos pequenos produtores e á um tipo de horticultura de auto-consumo. No entanto, se encararmos a actividade Horticola/agrícola em termos de mercado e aquisição de um nível de vida decente, deveremos encarar a produção agrícola de forma sustentável mas com a utilização de técnicas que nos conduzam a elevadas produções capazes de suprir um potencial mercado e garantir meios de subsistência familiar ou até empresarial. Sustentabilidade não deve ser sinónimo de pobreza. Os sistemas de consociações , sendo interessantes na pequena horta familiar, NÃO SÃO eficientes em termos de produção Biologica intensiva. Rotações adequadas permitem maquinizar e recorrer ás tecnologias de forma mais eficiente, sem degradação do solo e do ambiente permitindo o desenvolvimento de explorações capazes de garantir um nivel de vida adequado. Sou um adepto de PROUT (teoria de utilização progressiva) e como tal vejo a necessidade de formar grupos que do ponto de vista técnico tenham a capacidade não só de se alimentar a si próprios mas também de poder alimentar os milhões que povoam as grandes cidades.

    • Bom dia Pedro,
      Concordo plenamente consigo e felicito a sua vontade de criar esse projecto. De facto, tal como o título do artigo indica, são exemplos de culturas para espaços pequenos como hortas. Para áreas mais extensas, certamente será mais dificil replicar estas consociações.
      A seu tempo, irei criar artigos nesse sentido.
      Obrigada pela sua participação neste blog e volte sempre 🙂

  2. Pedro
    As minhas felicitações pelo comentário tão pertinente. Sigo regularmente a cientista agrícola, e espero poder continuar a usufruir da partilha dos seus conhecimentos…

  3. Achei muito interessante o artigo editado. Tenho uma pequena horta e procuro aprender um pouco sobre o assunto. Muito Obrigado.

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