Para ter couve na consoada já não basta semear. A meio de setembro, a única via que chega a tempo é o transplante de plântulas, e quem semear agora colhe a partir de janeiro.

Há uma frase que se repete todos os anos por esta altura e que já não é verdade: que setembro é o mês de semear as couves do Natal. Foi verdade durante muito tempo e continua a circular, mas as contas não fecham.

Uma couve tronchuda leva quatro a seis semanas desde a sementeira até estar em condições de ir para o terreno, e depois precisa de mais setenta a noventa dias no local definitivo. Some tudo e chega a meados de janeiro. Quem quiser couve na consoada tinha de ter semeado em julho ou na primeira quinzena de agosto.

Isto não significa que setembro seja um mês perdido. Significa que a pergunta certa deixou de ser o que semear e passou a ser outra: o que ainda vai a tempo por sementeira, o que tem obrigatoriamente de ir de plântula comprada, e o que já ficou para o ano que vem.

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O que o tempo vai fazer nas próximas semanas

As brássicas são plantas de tempo fresco e é por isso que a segunda metade de setembro lhes assenta tão bem. Germinam com a terra ainda tépida, entre os 18 e os 25 graus, e depois crescem com o ar a descer, que é exatamente o contrário do que precisam em maio.

O que vem aí joga a favor em duas frentes. As temperaturas descem, e com elas a pressão de algumas pragas de verão. E chega a chuva, que resolve o maior problema de instalar brássicas no fim do verão, que é a necessidade de humidade constante durante as primeiras semanas.

Há uma contrapartida. A partir do momento em que se instalam vários dias seguidos de folha molhada, as doenças fúngicas encontram condições ideais, e as brássicas são particularmente sensíveis. É uma troca que compensa, desde que se saiba que existe.

Há ainda um terceiro fator, menos evidente, que é a luz. A partir do equinócio, a cada semana que passa há menos horas de sol disponíveis para a planta trabalhar. Uma brássica instalada agora ainda apanha luz suficiente para construir estrutura antes de o inverno a obrigar a abrandar. A mesma planta instalada em novembro fica praticamente parada até fevereiro, e é por isso que o atraso de três semanas se transforma, na prática, em dois meses de atraso na colheita.

O que semear e o que plantar agora

A distinção entre semear e transplantar é toda a diferença deste artigo, e o quadro seguinte resolve-a de uma vez.

Cultura

Via possível agora

Dias após transplante

Colheita prevista

Couve galega

Plântula

60 a 80

Dezembro

Couve tronchuda

Plântula

70 a 90

Dezembro e janeiro

Brócolos

Plântula

60 a 90

Novembro e dezembro

Couve-lombarda

Plântula

80 a 100

Janeiro

Couve-flor

Plântula

70 a 110

Janeiro e fevereiro

Couve-roxa

Plântula

90 a 110

Janeiro e fevereiro

Couve-rábano

Sementeira direta

55 a 70

Novembro e dezembro

Nabiça e grelos

Sementeira direta

40 a 60

Novembro

Couve-de-bruxelas

Já não vai a tempo

100 a 150

Semear em maio ou junho

Valores de referência da literatura hortícola. Os prazos variam com a variedade, a região e o ano.

Repare na última linha, porque é a que mais desilusões evita. A couve-de-bruxelas precisa de um ciclo longo e de apanhar frio já com a planta desenvolvida. Plantada agora, chega ao inverno pequena de mais e nunca forma os rebentos. Anote para o próximo maio.

Para as que vão de plântula, escolha plantas curtas e atarracadas, com quatro a seis folhas verdadeiras e raiz branca e viva no torrão. Uma plântula alta e estiolada, daquelas que passaram tempo de mais num tabuleiro à sombra, nunca recupera. O procedimento de instalação, desde a abertura do rego até à profundidade certa, está explicado com detalhe no artigo sobre como plantar couves, e vale a pena ler antes de ir para o terreno.

As tarefas que decidem se há cabeça ou não

Uma brássica que pare de crescer, mesmo que só durante alguns dias, dificilmente recupera. Nas couves de cabeça e na couve-flor, uma interrupção provoca um defeito conhecido como botão prematuro: a planta forma uma cabeça minúscula e dá o ciclo por terminado. É irreversível.

Daí que a primeira regra seja crescimento contínuo. Isso quer dizer humidade regular nas primeiras três semanas após o transplante e um solo que já tenha matéria orgânica incorporada, porque estas culturas são das mais exigentes em azoto de toda a horta. Se o terreno ainda não está preparado, este é o momento, e preparar o solo para um inverno produtivo é um trabalho que não se faz em novembro com a terra encharcada.

A segunda é o espaçamento. É a tarefa em que quase toda a gente falha, por pena de deixar terra vazia. Uma couve galega precisa de sessenta a oitenta centímetros entre plantas, e brócolos ou couve-flor de quarenta e cinco a sessenta. Plantas demasiado juntas competem por luz e por azoto, e o resultado é um canteiro cheio de plantas medianas.

Uma brássica que pare de crescer, mesmo durante poucos dias, dificilmente recupera. Nas de cabeça, essa interrupção é irreversível.

A terceira é o amontoamento. Estas plantas ficam altas e pesadas e o vento de outono derruba-as com facilidade. Chegar terra ao caule, uma ou duas vezes ao longo do ciclo, estabiliza a planta e ao mesmo tempo estimula a formação de raízes adventícias no caule enterrado, que aumentam a capacidade de absorção.

A quarta é a cobertura do solo. Uma camada de palha ou de folha em redor das plantas cumpre três funções ao mesmo tempo: mantém a humidade regular, que é a condição número um desta cultura, amortece o impacto das chuvadas de outono sobre a terra, e dificulta a vida às lesmas, que preferem superfícies lisas e húmidas. Aplique depois de a plântula estar bem instalada, nunca encostada ao caule.

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Os riscos a vigiar nas próximas semanas

O primeiro é a lagarta da couve. Os últimos voos do ano coincidem exatamente com plântulas acabadas de instalar, que é a fase em que a planta menos aguenta perder folha. Vire as folhas e procure os ovos amarelos em grupo na página inferior. Esmagados a tempo, poupam-lhe o tratamento.

O segundo é o afídeo cinzento da couve, aquela colónia esbranquiçada e pulverulenta que se instala no coração da planta. Aparece com tempo ameno e seco e é difícil de alcançar depois de a cabeça fechar, o que faz da vigilância precoce a única estratégia que funciona.

O terceiro são as lesmas e os caracóis, que explodem com as primeiras chuvas e têm predileção por brássicas jovens. Uma ronda ao anoitecer durante a primeira semana após o transplante salva, com frequência, a plantação inteira.

O quarto, e o mais grave, é a hérnia das brássicas. É uma doença de solo que deforma as raízes em tumores e para a qual não há tratamento. Prospera em solos ácidos e mal drenados, e o inóculo permanece no terreno durante vários anos. Se já teve o problema, não plante brássicas nesse canteiro durante pelo menos quatro anos e corrija a acidez do solo. É a única coisa que resulta.

E há um risco que não é biológico e que mesmo assim estraga colheitas: comprar plântulas sem saber a variedade. Muitos hortos vendem couve genérica, sem indicação de ciclo. Numa cultura em que a diferença entre um ciclo curto e um ciclo longo pode ser de dois meses, isso é informação decisiva. Pergunte sempre, e se não souberem responder, escolha outro fornecedor.

O mesmo calendário não serve para todo o país

E aqui está a razão pela qual as couves são o que são no norte de Portugal.

No litoral norte, o clima é praticamente desenhado para brássicas: invernos amenos, humidade elevada e poucas geadas fortes. É por isso que a couve galega e a tronchuda se tornaram cultura de identidade nesta faixa do país. A janela de plantação estende-se com frequência até meados de outubro.

No interior norte e centro, as geadas chegam cedo e são severas. A couve galega e a tronchuda aguentam bem, e até ficam mais doces, mas a couve-flor sofre e pode perder a cabeça por queimadura. Aqui, plantar mais cedo e escolher variedades rústicas conta mais do que qualquer outro cuidado, e as estratégias de cultivo de inverno deixam de ser opcionais.

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No sul, o problema inverte-se. O calor de setembro prolonga-se e as brássicas plantadas cedo demais sofrem stress térmico logo no arranque. Vale a pena esperar pelo início de outubro e garantir rega, porque sem ela a instalação falha mesmo com temperaturas já suportáveis.

Portanto, antes de comprar seja o que for, responda a uma pergunta: quer couve no Natal ou quer couve no inverno? São coisas diferentes e exigem decisões diferentes hoje. E quando chegar novembro, volte a ver o que fazer na horta nessa altura, porque metade do trabalho de uma brássica acontece depois de ela estar plantada.