A meio de setembro acontece uma coisa que não se repete em mais nenhum momento do ano agrícola. O ar já arrefeceu o suficiente para deixar de ser hostil às plantas de folha, mas a terra continua a libertar devagar o calor que acumulou durante todo o verão. Mede-se com facilidade: pode ter 16 graus de ar ao início da manhã e encontrar 20 ou 22 graus a dez centímetros de profundidade.

Essa diferença, que parece um pormenor de agrónomo, é o que separa uma sementeira que emerge em quatro dias de outra que demora doze. E doze dias em setembro não valem o mesmo que doze dias em maio, porque a cada semana que passa a luz disponível diminui e a planta tem menos tempo útil para crescer antes do frio apertar.

A janela existe, é curta e fecha-se sozinha. Quem semeia agora colhe. Quem espera por outubro semeia na mesma, mas colhe bastante mais tarde e bastante menos.

O que o tempo vai fazer nas próximas semanas

O solo tem inércia térmica. Aquece devagar na primavera e arrefece devagar no outono, sempre com atraso em relação ao ar. É por isso que a temperatura máxima do solo em Portugal não acontece em julho, mas sim em agosto, e que o mínimo não acontece em dezembro, mas em janeiro ou fevereiro.

Na prática, a partir de meados de setembro entra-se numa descida que é lenta ao princípio e depois acelera. Enquanto o tempo se mantiver seco e soalheiro, a terra vai conservando valores confortáveis para a germinação. A partir do momento em que chega a primeira sequência de dias de chuva, a descida torna-se rápida por duas razões ao mesmo tempo: deixa de haver radiação a aquecer a superfície e a água que se infiltra transporta frio para dentro do perfil.

Inércia térmica do solo- É a resistência da terra a mudar de temperatura. Quanto mais húmido e mais compacto estiver um solo, mais energia é preciso para o aquecer ou arrefecer, e maior é o atraso em relação ao ar. Um solo arenoso e seco responde depressa. Um solo argiloso e húmido responde com semanas de atraso.

Traduzindo para decisões concretas: tem provavelmente entre duas e quatro semanas de condições excelentes, consoante a zona do país e o que o tempo fizer. Não é um prazo que se leia no calendário, é um prazo que se lê na terra. Um termómetro de solo barato, espetado a dez centímetros ao fim da manhã, dá-lhe uma informação que nenhuma previsão lhe dá.

O que semear e plantar agora

Nem todas as hortícolas reagem da mesma forma a esta janela. As culturas de fruto de verão já não vão a tempo, porque precisam de calor prolongado e de muitas horas de luz para amadurecer. As de folha e as de raiz, pelo contrário, encontram aqui as melhores condições do ano inteiro: germinam com a terra tépida e crescem com o ar fresco, que é exatamente ao contrário do que lhes acontece em maio.

A alface é o exemplo mais claro dessa inversão. Semeada em junho, apanha calor a mais e entra em termoinibição, ou seja, recusa-se a germinar acima de certa temperatura. Semeada agora, nasce sem esforço e cresce sem espigar.

Tabela. Temperaturas de germinação e prazos de emergência

Cultura

Mínima do solo

Intervalo ótimo

Emergência a 20 ºC

Rabanete

4 ºC

18 a 25 ºC

3 a 5 dias

Rúcula

5 ºC

15 a 22 ºC

4 a 6 dias

Nabiça e nabo

4 ºC

15 a 30 ºC

4 a 6 dias

Alface

4 ºC

15 a 20 ºC

4 a 7 dias

Couves e brócolos

5 ºC

18 a 25 ºC

4 a 7 dias

Espinafre

2 ºC

10 a 22 ºC

6 a 10 dias

Beterraba

5 ºC

18 a 25 ºC

7 a 12 dias

Ervilha

4 ºC

15 a 22 ºC

7 a 10 dias

Coentros

8 ºC

15 a 22 ºC

8 a 14 dias

Cenoura

5 ºC

18 a 25 ºC

10 a 17 dias

Valores de referência da literatura hortícola. Os prazos reais variam com a humidade do solo e com a idade da semente.

Repare na última coluna, porque é aí que está o argumento. A cenoura precisa de duas semanas e meia para emergir mesmo em condições boas. Semeada daqui a um mês, com a terra já a 14 graus, pode demorar o dobro, e nessa altura já não há luz suficiente para ela engrossar antes do inverno. É por isso que a cenoura de outono se semeia agora ou não se semeia de todo.

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Além destas, esta é também a altura de instalar as culturas que passam o inverno no campo e produzem na primavera. O alho e a cebola entram nesse grupo, e têm exigências próprias de solo e de frio que convém conhecer antes de plantar os dentes. O mesmo se aplica às couves, que precisam de meses para formar cabeça: quem quiser couve na mesa do Natal tem de transplantar as plântulas agora, em meados de setembro, e não em outubro.

As tarefas que acompanham a sementeira

Semear é a parte fácil. O que decide o resultado é o que se faz nos dez dias seguintes.

A primeira tarefa é garantir humidade constante à superfície. Uma semente que humedece e volta a secar antes de completar a germinação morre, e não há segunda oportunidade. Com o sol de setembro ainda forte ao meio-dia, a camada superficial seca depressa. Regas curtas e frequentes valem mais do que uma rega longa de dois em dois dias.

A segunda é proteger a superfície do impacto da chuva. As primeiras chuvadas de outono costumam ser intensas e conseguem formar uma crosta que as plântulas mais frágeis não atravessam. Uma cobertura leve, com palha bem esmiuçada ou com um véu de sombra, resolve o problema e ao mesmo tempo trava a evaporação.

Uma semente que humedece e volta a secar antes de completar a germinação morre, e não há segunda oportunidade.

A terceira é o desbaste. Custa a fazer e é das operações que mais aumenta a colheita. Plantas demasiado juntas competem por água, luz e nutrientes, e o resultado é um canteiro cheio de plantas pequenas em vez de um canteiro com plantas aproveitáveis. Faça-o assim que as plântulas tiverem as primeiras folhas verdadeiras, com a terra húmida, para não arrancar as vizinhas.

A quarta é o registo. Anote a data de sementeira e a data de emergência de cada fila. Ao fim de dois anos tem um calendário construído sobre o seu terreno, que vale mais do que qualquer calendário genérico impresso num livro.

Há ainda uma quinta tarefa que quase ninguém faz e que custa cinco minutos: semear em duas datas, com oito a dez dias de intervalo. Chama-se sementeira escalonada e serve de seguro. Se a primeira fila apanhar uma chuvada forte ou uma noite quente fora de tempo, a segunda apanha condições diferentes. Além disso, escalona também a colheita, e evita ter quarenta alfaces prontas no mesmo fim de semana.

Os riscos a vigiar nas próximas semanas

O primeiro risco é o calor tardio. Portugal tem, quase todos os anos, um período quente no fim de setembro que a tradição popular batizou de verão de São Miguel. Se esses dias apanharem alfaces recém-nascidas, pode haver perdas. A solução é simples e barata: uma rede de sombra durante as horas centrais nos primeiros dez dias.

O segundo são as lesmas e os caracóis. As primeiras chuvas provocam uma explosão populacional e as plântulas acabadas de emergir são o alimento perfeito. Esta é a fase do ano em que uma ronda ao anoitecer, durante uma semana, salva uma sementeira inteira.

O terceiro são os fungos. Assim que chegam três ou quatro dias seguidos de folha molhada, as doenças que estiveram contidas durante o verão seco encontram condições ideais para infetar. Não é preciso esperar pelos sintomas, e é precisamente esse o ponto: basta olhar para a previsão de precipitação e agir antes. Arejar as filas, evitar regar ao fim do dia e não trabalhar no meio das plantas com a folhagem molhada são três medidas que não custam nada e que fazem diferença.

O quarto, e o mais subestimado, é o próprio encharcamento. Um canteiro que drena mal em setembro drena pior em novembro. Se tiver dúvidas sobre alguma zona do terreno, esta é a altura de corrigir o nivelamento ou de levantar o canteiro, porque daqui a seis semanas já não terá condições de mexer na terra. Escrevi noutro artigo o passo a passo de como preparar o solo para um inverno produtivo, e é um trabalho que se faz agora ou não se faz de todo.

O mesmo calendário não serve para todo o país

E aqui está a parte que a maioria dos calendários de sementeira esconde.

No litoral norte, o oceano funciona como um regulador. As temperaturas descem devagar, a humidade mantém-se alta e a janela útil estende-se com frequência até meados de outubro. Em compensação, a menor insolação obriga a escolher variedades que tolerem pouca luz.

No interior norte e centro, acontece o oposto. A amplitude térmica é muito maior, as noites arrefecem depressa e o solo acompanha. A janela pode fechar-se logo no fim de setembro, e a primeira geada chega semanas antes do que no litoral. Quem cultiva nestas zonas tem de pensar já em culturas e proteções de inverno, porque o calendário do litoral não lhe serve.

No sul, a terra mantém temperaturas confortáveis durante muito mais tempo, por vezes até novembro, mas o problema deixa de ser o frio e passa a ser a água. Sem rega, uma sementeira de outono no Alentejo depende inteiramente de a chuva chegar a tempo.

Portanto, antes de seguir qualquer calendário, incluindo este, faça uma coisa: espete um termómetro a dez centímetros na sua terra, ao fim da manhã, durante três dias seguidos. Esse número diz-lhe mais sobre o que pode semear do que qualquer tabela impressa, porque é o número do seu terreno e de mais nenhum. Anote-o, semeie em função dele, e daqui a seis semanas vai precisar dele outra vez quando chegar a altura das tarefas de novembro.