As razões porque deve valorizar as raças autóctones portuguesas

Autor do artigo: José Pena,Estudante de Agronomia e  Técnico Superior de Mecanização e Automação Agrícola

Valorizar as raças autóctones portuguesas

As raças autóctones portuguesas são a prova viva da grande biodiversidade no que diz respeito a recursos genéticos no nosso País. Atualmente estão reconhecidas 15 raças autóctones de bovinos, 15 de ovinos, 5 de caprinos, 4 de suínos, 4 de equinos, 4 de galináceos, 2 de asininos e 11 de caninos. Estas representam um património genético valioso e apresentam um grande potencial de valorização económica e conservação de usos e costumes, uma vez que fazem parte do património histórico e cultural do País representando-se como produtos tradicionais de qualidade.

Raças autóctones portuguesas: Raça Barrosã (Fonte da imagem: Gazeta Rural)

Resultado da evolução de determinadas espécies animais, com a finalidade de se adaptarem aos meios onde vivem, as raças autóctones portuguesas são parte integrante do meio rural, onde têm um papel importantíssimo no equilíbrio dos ecossistemas. As raças autóctones foram sendo selecionadas empiricamente pelas populações por forma a satisfazerem as suas necessidades alimentares (carne, leite e ovos), de trabalho (tracção e transporte) e de vestuário (peles, lã e penas) (Dantas, Espadinha). Por outro associado a estas estão diversas atividades de carácter gastronómico, social e cultural.

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Galinhas: exemplo de raças autóctones portuguesas (Fonte da imagemAgroArea)

Quando uma população vive durante muitas gerações sob as mesmas condições ambientais consegue um elevado grau de adaptação e uniformidade, desenvolvendo-se melhor nestas condições que outras raças que provenham de outras regiões (Mantas, 2009). Não se poe deixar de lado a possibilidade destas espécies serem:

  • Resultado da conservação da diversidade genética, uma vez que cerca de metade das diferenças genéticas são únicas para cada raça e a outra metade é comum a todas as raças da mesma espécie (Mantas, 2009).
  • Originárias de locais próprios ou terem migrado doutros locais (com influência do Homem ou não);
  • Consequência de alterações fisiográficas originadas pelo Homem;
  • Cruzamentos entre raças locais que se perderam ou mesmo atuais, mas com evoluções diferentes.

O uso e manutenção destas espécies por vezes é o efeito conjunto de diversos fatores:

  • Económicos: o retorno financeiro que essa espécie tem para o produtor;
  • Geográficos: a estrutura fundiária e as características edafoclimáticos da região da qual é originária ou melhorada;
  • Históricos: importância histórica e os costumes associados a uma determinada espécie;

O papel das raças autóctones nos sistemas agrícolas e nos ecossistemas, sobretudo florestais, é enorme e resulta numa utilização eficiente dos recursos disponíveis utilizando produtos agrícolas com pouco ou nenhum aproveitamento. A grande contribuição está também ao nível do desenvolvimento rural, levando à fixação das populações rurais nos territórios mais desfavorecidos e de baixa densidade, normalmente o meio ideal de adaptação destas espécies.

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Ovelhas Bordaleiras da Serra da Estrela (raça autóctone em Livro Genealógico gerido pela ANCOSE (Fonte da imagem: Revista Voz do Campo)

É igualmente importante do ponto de vista económico, o principal fim da sua exploração, uma vez que estas ficam aquém das exigências do mercado e serem por vezes penalizadas pelas alterações socioeconómicas, as raças autóctones portuguesas baixaram de forma significativa, quase ao ponto de se perderem. Em períodos temporais que foram valorizadas raças especializadas e com maiores rendimentos, foi necessário criar condições de estas se sustentarem por si mesmas com a valorização da carne e subprodutos, e através de pagamentos aos agricultores pelo serviço que estas prestam com a sua manutenção e perdas de rendimento, associados ao não uso de animais mais produtivos.

As regiões portuguesas que possuem raças próprias têm-nas como verdadeiros ex-libris, visto que muitas delas estiveram próximas do desaparecimento e só com um trabalhado excecional de entidades oficiais e produtores foi possível recuperar os efetivos para fora do perigo de extinção.  No entanto, e para trabalho futuro, é essencial realizar a manutenção do património genético que motivou as sua reintrodução e recente valorização.

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Centro Interpretativo das raças autóctones: Município de Vinhais (Fonte da imagem:Câmara Municipal de Vinhais).

O futuro deverá contribuir para a manutenção de sistemas de produção sustentáveis, em que se consiga a conservação das espécies e seus recursos genéticos assim como a consciencialização dos ecossistemas e usos associados. Mais do que o seu potencial económico, será elevar a herança transmitida pelos nossos antepassados e a tradição imposta, assim como a contribuição para a coesão social, fomentado o mundo rural português.

 

Bibliografia:
AS RAÇAS AUTÓCTONES (2008), Mantas A., http://naturlink.pt/article.aspx?menuid=66&cid=3143&bl=1&section=1&viewall=true#Go_1, http://naturlink.pt/, consultado a 12 de setembro de 2018
PELA DEFESA DAS RAÇAS AUTÓCTONES PORTUGUESAS, Dantas R., Espadinha P., http://www.sprega.com.pt/docs/PELA_DEFESA_racas.pdf, http://www.sprega.com.pt, consultado a 12 de setembro de 2018
RECENSEAMENTO GERAL DOS GADOS NO CONTINENTE DO REINO DE PORTUGAL EM 1870 (1873), Direcção geral do commercio e industria, https://anidop.iniav.pt/index.php/a-rede/biblioteca/details/2/26/1, https://anidop.iniav.pt/, consultado a 12 de setembro de 2018

 

 

 

 

 

 

 

acientistaagricola

Olá, sou a Rosa. Nasci e cresci em meio rural e desde cedo percebi o que queria fazer para o resto da vida. Mais tarde, quando entrei no ensino superior tornei-me Técnica Superior do Ambiente e Agrónoma, áreas que sempre me fascinaram. Este blog é mais do que um projecto pessoal...é  o culminar de duas paixões: a escrita e as ciências ambientais e agrárias. Este é um local de encontro entre todos aqueles que partilham destas mesmas paixões.  

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